Em referencia às imagens digitais adotadas pela sociedade de consumo sua paleta é reduzida a uma pulsação cromática direta com cores intensas e luminosas.
Cientemente colocadas em contraste dentro do plano pictórico, os elementos que constituem as imagens, onde praticamente em sua maioria se relaciona à figura humana, subordinam-se a essa pulsação e luminosidade. Em alguns casos, a artista deixa de situar a figura dentro de um lugar em possíveis ações ou narrativas e adota um discurso mais direto, um enquadramento 3x4 da figura humana, fazendo menção às fotografias de documentos em pequenos instantes de tensão de seu posicionamento e olhar. Nota-se que a artista já dirige a cena, onde em muitos casos ela é a própria fotógrafa, tomando ciência de todo o processo. Processo também evidente na maneira técnica de trabalhar a superfície da pintura, onde percebemos o espaço cromático, o gesto na construção das imagens e uma instantaneidade no posicionamento destas figuras. Em uma percepção de instantâneos, todo o trabalho nos apresenta diretamente as relações contidas em sua superfície, onde percebemos cada parte, cada espaço, o processo e por uma questão óptica, a cor ligeiramente se sobressai e nos pede para olharmos o próximo “instantâneo”.
A paleta muda e a cor nos induz a saboreá-la, não só a ela, mas também a novos recortes imagéticos.
A imagem e seus valores representativos tiveram grande peso, sendo de suma importância na condução das civilizações durante a história, e em tempos midiáticos, como o de hoje, a própria imagem tornou-se um dos principais ícones de consumo.
O passeio da artista por artistas como Cindy Sherman, Gerhard Richter, Hooper e em propostas hiper-realistas, direcionam possibilidades de entendimento sobre seu trabalho.
Entre a fotografia e a pintura, Carolina Paz trabalha dentro da imagem, transitando em suas potencialidades e nos colocando ativamente ao seu deleite. Não há tensão entre as propostas como em trabalhos anteriores, onde as partes evidenciadas compunham o todo do trabalho. A artista não atua nas tensões criadas dentro e nos intervalos de uma imagem à outra ou mesmo de uma nova série ou trabalho, há um só jogo, uma só paixão, a imagem, e o que ela nos proporciona. A fotografia e a pintura complementam-se numa espécie de deslizamento; conteúdos da fotografia impreguinados na pintura e de qualidades pictóricas em suas imagens fotográficas.
Sendo a imagem um grande valor, fica claro seu pensamento dentro desses sistemas imagéticos e em todo o seu processo, onde ela as edita, manipulando-as e transpondo-as em suas escolhas. E esse processo está impreguinado em toda sua produção e nos trabalhos atuais de pintura se apresentam não de uma maneira direta, como em propostas anteriores, mas lentamente, e aos nossos olhos vão se anunciando. Pedem-nos um tempo maior de apreciação e não temos a clara certeza desses procedimentos. Suas abordagens técnicas não se encontram de uma maneira evidente e sim velada, onde definitivamente a artista entra no território da pintura, não só na utilização do material escolhido, mas em uma abordagem mais elástica de seu tratamento técnico. Com mais ciência na escolha da cor e seus valores, a superfície pictórica se equivale à força dos recortes compositivos, que dentro de seu processo formam um amálgama, não havendo hierarquia entre esses elementos. Assim a pintura está posta para saboreá-la.
Le garçons, série de pinturas efetuadas em 2009, intituladas Antoine, Guillaume, Louis, Marc, Yves, Jacques e Jean, são produzidas a óleo e apresentam o prazer em sua feitura, utilizando velaturas, passagens tonais, um tratamento aveludado e um controle de luminosidade que se encontra contido em seu interior. Relações táteis são suscitadas ao olhá-las, ao saborear sua superfície.
A artista novamente dirige a cena, escolhe e manipula as imagens que serão pintadas e essas relações são quase fílmicas.
Há desejos nessas propostas, e eles ativam a necessidade de apreciação contida em ícones imagéticos de consumo. Cada vez mais em suas imagens há uma necessidade desse consumo, não no sentido unicamente antropofágico, mas nas relações de desejo, nos convocando à apreciação, ao voyeurismo, a saborear o observado, estimulando-nos os sentidos. Este saborear está colado com o desejo e lembremo-nos que suas imagens são representações de figuras humanas, fragmentos do corpo colocados sensualmente no campo pictórico, e na maneira como são apresentados, alguns de forma quase objetual, carnal, como uma espécie de natureza morta, pedem para serem consumidos. Não vemos o rosto e nem o corpo em sua totalidade, somos seduzidos por uma imagem andrógena que surge nos recortes e enquadramentos, estimulando valores de gênero e poder, relações entre o privado e o público, apreciação e consumo, e tudo o que esteja ligado a ela se confundem.
Querer espiar um pouco mais pelas bordas, pelas frestas, nos recortes trabalhados pela artista desde sua primeira escolha. O olho de quem é, o da artista ou do observador, que olha as imagens criadas e se apodera, desejando-as?